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Carlos Neves, Secretário-geral da APROLEP

No capítulo 41 do primeiro livro da Bíblia, o Génesis, ficamos a conhecer a história do Faraó do Egipto que sonhou com 7 vacas gordas que pastavam junto ao Nilo e eram devoradas por 7 vacas magras. José, filho de Jacó, explicou ao Faraó que o sonho era um aviso para aproveitar os anos de fartura na colheita de modo a armazenar reservas para enfrentar os anos de más colheitas que se iriam suceder. O Faraó seguiu os conselhos de José e o povo do Egipto sobreviveu à fome que afetou outros povos da região. Esta história mostra não só como a criação de vacas e o consumo de leite já existiam há 4000 anos (mais tarde o povo hebreu abandonou o Egipto a caminho da terra prometida onde também havia “leite e mel”) mas também como ao longo do tempo acontecem anos bons e anos maus em termos de preço e produção na agricultura.

Os produtores de leite portugueses viveram um período de “vacas médias” ao longo dos últimos anos face às crises anteriores. Não foram “vacas gordas” porque estivemos nos últimos lugares entre os países da Europa no preço ao produtor. Agora que os preços internacionais dos lácteos entraram em modo “vacas magras”, esperava-se que pelo menos a indústria portuguesa, em particular a indústria de base cooperativa, se afirmasse no mercado mantendo o preço estabilizado tal como esteve estabilizado quando os outros subiram. Lamentavelmente, isso não aconteceu e todos os compradores desceram o preço. É um mau sinal, que deixa os produtores na linha de água da rentabilidade. Uma decisão que retira esperança no futuro, que desanima e revolta os jovens que pensam instalar-se no setor e que obriga os produtores de leite a ponderar deixar a atividade e procurar alternativas como a eventual reconversão para a produção de carne.

Se o Governo, a indústria e a distribuição querem assegurar o futuro da produção de leite em Portugal, devem suster esta descida e trabalhar para aumentar o preço para um nível que consideremos um “preço justo”, capaz de pagar os custos de produção, o trabalho dos produtores e manter viva a nossa agricultura. Um preço que nos permita criar reservas para os anos e momentos difíceis como a tempestade Kristin que atingiu vários colegas nossos na região Centro. Agora, nós, os que sobrevivemos e resistimos na produção de leite em 2026, temos de ser solidários, resistir e reconstruir.

Carlos Neves
Secretário-geral da APROLEP

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